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Women In Science

A química brasileira Joana D’Arc Félix de Sousa em sua trajetória da pobreza até o pós-doutorado em Harvard e de inventora a professora

Filha de um profissional de curtume e de uma empregada doméstica, ela agora defende a juventude desprivilegiada

by Meghie Rodrigues, special to C&EN
March 10, 2019 | APPEARED IN VOLUME 97, ISSUE 10

 

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Credit: Inventivo Coletivo
Joana D’Arc Félix de Sousa

Joana D’Arc Félix de Sousa acredita firmemente na ciência como uma ferramenta para um impacto social positivo. Criada por um profissional de curtume e de uma empregada doméstica em Franca, no interior do Brasil, ela se formou em química pela Universidade de Campinas. Posteriormente, fez pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Harvard.

Ela está listada como inventora em 15 patentes. Entre suas invenções está uma maneira de tratar a pele suína para remover a gordura e a proteína, e torná-la menos provável de ser rejeitada quando usada em enxertos de pele em humanos.

Félix de Sousa retornou ao Brasil em 2002 e assumiu o cargo de professora na Escola Técnica Prof. Carmelino Corrêa Júnior, em Franca, onde envolveu estudantes em pesquisas para transformar resíduos de curtume em fertilizantes e cimento ósseo para reconstituir fraturas, além de desenvolver um sapato dermatológico que libera enzimas antimicrobianas para tratar fissuras no pé causadas pelo diabetes. Ela incentiva os alunos a trabalhar em projetos para resolver problemas de suas vidas pessoais. O projeto de sapato dermatológico, por exemplo, foi inspirado por um estudante que queria ajudar a mãe.

Uma empresa farmacêutica no Brasil está interessada em comercializar a tecnologia de pele suína e outra empresa está interessada no fertilizante.

A C&EN conversou com Félix de Sousa sobre sua trajetória na química e o trabalho que está fazendo agora. Esta entrevista foi editada para comprimento e clareza.

O que fez você buscar a ciência e a química em particular?

Dados pessoais

Cidade natal: Franca, Brasil

Instrução: Bacharelado, Mestrado e Doutorado, Universidade de Campinas

Número de patentes: 15

Trabalho atual: Professora e supervisora de pesquisa, Escola Técnica Professor Carmelino Corrêa Júnior

Realização que mais a orgulha: “Estou feliz por ter a oportunidade de transmitir um pouco de meu conhecimento aos meus alunos. O conhecimento é a única coisa que ninguém é capaz de tirar de nós.”

O desejo de estudar química veio desde muito pequena. Eu nasci em uma casa dentro de um curtume, onde meu pai trabalhou por mais de 40 anos. Sua situação financeira era bastante precária, e quando ele se casou com minha mãe, seu chefe os deixou morar em uma casinha na área interna do curtume. Meus irmãos e eu fomos criados lá e eram conhecidos em Franca como as crianças fedorentas do curtume. Nossos amigos quase nunca iam lá porque para chegar à casa você tinha que passar pela oficina, que tinha um cheiro horrível. O curtume é uma atividade extremamente fedorenta.

Mas também vi químicos trabalhando no curtume. Seus casacos brancos e os corantes que eles manipularam realmente chamaram minha atenção e fizeram com que eu me apaixonasse pela química.

Você teve uma infância dura, mas não desistiu da educação. O que a fez continuar?

Quando cresci, estudei em uma escola pública no centro da cidade. Havia muitos filhos de pessoas ricas estudando lá, e as classes eram classificadas pelo status social dos alunos. A classe A era a mais rica. Eu costumava estudar na última classe, a F. Naquela escola, eu aprendi o que era racismo e exclusão: Eu ouvia que pessoas como eu não poderiam ter sucesso na vida. Eu ficava intimidada e sentia tanta vergonha que às vezes não queria voltar para a escola.

Mas a sabedoria de meus pais me salvou. Mesmo sendo semianalfabeto, meu pai costumava dizer que eu tinha que continuar frequentando a escola e ser a melhor da minha turma, que deveria estudar muito, ter sucesso e mostrar àqueles que me intimidavam que eles estavam errados sobre mim.

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Aos 14 anos, passei nos exames de admissão para as Universidades de São Paulo e Campinas e para a Universidade Federal de São Paulo. Meus professores me disseram que o melhor curso de química do país era na Universidade de Campinas, então essa foi a minha escolha. Os estudantes no Brasil frequentam gratuitamente as universidades públicas, mas ainda era difícil cobrir as despesas de manutenção no primeiro semestre. Uma bolsa de pesquisa júnior cobriu minhas finanças do segundo semestre em diante.

De lá você foi para seu mestrado, doutorado e, finalmente, um pós-doutorado em Harvard. Como foi se mudar para Harvard?

Harvard me ensinou a ser forte e encarar desafios com a cabeça erguida. Fui motivada por vários professores que costumavam dizer que a cor da pele não é um destino, e podemos ter sucesso apesar disso. Eles também me incentivaram a estabelecer metas, manter o foco nessas metas e ignorar aqueles que não acreditavam em pessoas como eu e em nossa capacidade de realizar nossos sonhos.

Você poderia ter ido trabalhar em uma renomada universidade ou centro de pesquisa. Por que você voltou para Franca?

Meu sonho era ensinar e pesquisar em uma grande universidade. Mas minha mãe ficou doente. Também, minha irmã, mãe de quatro filhos, e meu pai morreram não muito antes. Então, voltei para ajudar e vi essa vaga para professora na escola que atualmente trabalho para dar um curso técnico em curtimento.

A escola fica na periferia da cidade porque oferece curso técnico em agricultura. O bairro é dominado por grupos criminosos, tráfico de drogas e prostituição. Não é incomum que os alunos se envolvam nessas atividades para levar dinheiro para casa. Quando comecei lá, a evasão escolar era alta e a falta de disciplina era exagerada. Foi muito difícil envolver os alunos.

Desenvolvemos um projeto de pesquisa para incentivar e conceder subsídios para alunos difíceis de dominar. Era uma maneira de mantê-los ocupados com algo que poderia tirá-los da prostituição e do tráfico de drogas, e funcionou. Em uma década, fui mentora de 40 alunos. Oito passaram a trabalhar como técnicos e 32 foram para a universidade para estudar química. Os piores alunos, quando têm uma oportunidade, são capazes de despertar todo o talento adormecido dentro deles e acabam sendo os melhores alunos da turma.

Em quais projetos você e seus alunos estão trabalhando agora?

Estamos desenvolvendo um tecido resistente a chamas que pode ser usado em uniformes de bombeiros, como os usados nos EUA, mas não tão caros, então os bombeiros brasileiros podem usá-los. Tratamos a pele de vaca com resíduos de isopor para torná-la impermeável e não inflamável. A ideia veio de um estudante cujo tio, um bombeiro, ficou com as costas queimadas durante o trabalho.

Também estamos trabalhando em tecidos antimicrobianos para uniformes de enfermeiras e médicos, bem como pijamas de pacientes e roupas de cama de hospital, a fim de evitar a infecção hospitalar, tanto quanto possível. Também estamos trabalhando na pintura antimicrobiana na parede de quartos e corredores de hospitais. Essa ideia também veio de uma estudante cuja tia morreu de uma infecção hospitalar, apesar de ter sido hospitalizada por um problema menor

Meghie Rodrigues é escritora freelancer no Brasil.


Essas traduções são parte da colaboração entre C&EN e a Sociedade Brasileira de Química. A versão original (em inglês) deste artigo está disponível aqui.


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