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Ethics

Ensaio que critica os esforços para aumentar a diversidade na síntese orgânica excluído após reação dos químicos

A publicação de um ensaio pessoal em Angewandte Chemie aponta para problemas mais profundos na comunidade, dizem os químicos

by Laura Howes
June 15, 2020 | APPEARED IN VOLUME 98, ISSUE 23

Acesse todo o conteúdo em português da C&EN em cenm.ag/portuguese.

Um ensaio de 5 de junho sobre o estado da síntese orgânica provocou protestos imediatos de químicos devido às críticas do autor aos esforços para aumentar a representação de mulheres e grupos sub-representados no campo. A revista que publicou o ensaio, Angewandte Chemie, International Edition, eliminou o artigo de seu site e suspendeu dois de seus editores, enquanto investiga o processo editorial que levou à publicação do ensaio. Vários membros do conselho consultivo internacional da revista também renunciaram em protesto pelo ensaio.

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Credit: Guacamoleman/Wikimedia
Hudlický

O artigo, escrito por Tomáš Hudlický, da Universidade de Brock, em reconhecimento ao 83º aniversário do químico orgânico Dieter Seebach, reflete sobre fatores que influenciam o modo como o campo da síntese orgânica continua se desenvolvendo. Um dos fatores que Hudlický discute é a diversidade da força de trabalho. Ele argumenta que os esforços para promover a diversidade priorizaram a inclusão de certos grupos de pessoas à custa da meritocracia.

Após críticas imediatas e intensas à obra de químicos nas redes sociais, a revista rapidamente excluiu o ensaio de seu site. O identificador de objeto digital (DOI), um código universal usado para identificar artigos publicados, primeiro enviou os leitores a uma mensagem de erro “página não encontrada” e agora redireciona para uma declaração do editor-chefe da revista, Neville Compton.

Nessa declaração, Compton escreve que “embora a diversidade de opiniões e pensamentos possa estimular mudanças e debates, este ensaio não teve lugar em nosso diário nossa revista”. Compton acrescentou que a revista “compartilhará as ações que estamos implementando na próxima semana para garantir que isso não aconteça novamente”. Angewandte Chemie é o jornal oficial da Sociedade Química Alemã (GDCh). Em uma declaração de acompanhamento divulgada em 8 de junho, a Sociedade Química Alemã pediu desculpas pela publicação do ensaio. A declaração acrescentou que dois editores envolvidos na publicação do ensaio foram suspensos e os árbitros que revisaram o ensaio não serão mais usados como revisores da revista.

Em 9 de junho, o Angewandte Chemie compartilhou uma lista mais detalhada de ações que a revista e seu editor adotaram desde que o ensaio foi publicado. A editora estabeleceu um comitê interino de editor-chefe composto por quatro funcionários do departamento editorial da Wiley-VCH. Esse comitê assumirá total responsabilidade editorial pelo Angewandte Chemie. A Wiley-VCH não confirmou o status de Compton na publicação. A revista diz que está introduzindo um novo processo para a revisão por pares dos artigos de opinião, que contará com especialistas no tópico do ensaio, em vez de revisores da área da revista. A revista também se compromete a ampliar a diversidade nos conselhos editorial e consultivo e a desenvolver novas diretrizes editoriais que incorporem princípios e práticas de igualdade e inclusão da diversidade. Uma revisão externa está planejada para avaliar os processos da revista, enquanto uma revisão interna está em andamento.

Nas redes sociais, alguns pesquisadores afirmaram que já retiraram artigos para serem considerados pela revista e outros disseram à C&EN que estão pensando em encerrar sua associação à GDCh.

Em 8 de junho, 16 químicos emitiram uma declaração conjunta anunciando sua renúncia ao conselho consultivo internacional do Angewandte Chemie. Na declaração, os químicos denunciaram “o ensaio e o processo pelo qual ele foi publicado” antes de acrescentar que sua demissão “oferece à revista a oportunidade de reconstituir o Conselho de uma maneira que reflita nossa comunidade e sociedade em geral”. Dentre os 16 químicos, Cathleen Crudden, uma química da Queen’s University, havia anunciado originalmente sua demissão do conselho em 5 de junho. Ela afirma que sentiu que não podia mais ter seu nome associado à revista. “Além desse caso, o Angewandte Chemie mostrou uma significativa falta de liderança em termos de questões relacionadas à equidade, então, senti que estava na hora de remover meu nome do conselho”, escreveu ela em comunicado enviado à C&EN.

A Royal Society of Chemistry, a American Chemical Society, a German Chemical Society e a Chemical Research Society da Índia divulgaram uma declaração conjunta em 8 de junho que não abordou diretamente o ensaio, mas afirmou que “sexismo, racismo, discriminação contra pessoas LGBTQ + e muitas outras formas de desigualdade são, infelizmente, predominantes nas ciências químicas, tanto no nível individual quanto no institucional”. E o reitor da Universidade de Brock, Greg Finn, divulgou uma carta aberta em 7 de junho, na qual ele escreveu que “As declarações contidas no documento não são representativas da comunidade da Brock” e que mais respostas estavam sendo consideradas.

Os químicos que criticam o ensaio dizem que as opiniões expressas por Hudlický apontam para problemas muito mais amplos na comunidade química, que falhou em abordar adequadamente a discriminação aberta e secreta contra químicos que são membros de grupos sub-representados. “Corrigir isso não é só remover um artigo”, diz Jen Heemstra, química da Universidade Emory e autora da coluna Horário comercial da C&EN. “Trata-se de desmantelar a cultura difusa e tóxica que seleciona e promove esses valores.”

“Como recrutador experiente e líder de um grande grupo de químicos no setor farmacêutico, posso dizer que essas visões [expressas por Hudlický] não são apenas factualmente erradas, elas representam os tipos exatos de preconceitos que há muito atormentam a área de química orgânica ”, diz L.-C. Campeau, diretor executivo, chefe de Química de Processos e Química de Processos de Descoberta da Merck & Co. “Em nosso próprio trabalho, nos beneficiamos imensamente de uma cultura mais inclusiva e do aumento da diversidade, levando a soluções mais criativas para os problemas científicos sem precedentes que resolvemos todos os dias em nossa busca por melhorar a saúde humana.”

De fato, estudos têm mostrado que estudantes de grupos minoritários sub-representados inovam a taxas mais altas do que os estudantes majoritários, mas suas novas contribuições são desvolorizadas e menos propensas a lhes propiciar posições acadêmicas (Proc. Natl. Acad. Sci. USA 2020, DOI: 10.1073/pnas.1915378117). Além disso, em um estudo, cientistas de grupos sub-representados nas ciências tinham menos probabilidade de serem convidados ou designados para dar palestras em reuniões científicas (Nature 2019, DOI: 10.1038/d41586-019-03688-w).

Hudlický considera que seu ensaio foi retirado de contexto e mantém o que escreveu, acrescentando que recebeu e-mails de apoio e críticas desde que o artigo foi publicado e excluído. Ele ressalta a diversidade de seu próprio grupo de pesquisa e explica que não é contra a diversidade; em vez disso, argumenta contra a contratação preferencial de um grupo em detrimento de outro.

Hudlický confirma que o artigo passou por uma revisão por pares e que a Angewandte Chemie não o havia informado antes de remover seu artigo do site da revista. Ele descreve tentativas de destruir sua carreira e as dos editores que lidaram com seu ensaio como “indo além da censura”. Ele argumenta que seu artigo não deveria ter sido excluído do registro da literatura e, em vez disso, a revista deveria ter convidado químicos para escrever refutações.

“A verdadeira tragédia é que este artigo não representa uma opinião isolada”, diz Andy Cooper, químico organometálico da Universidade de Liverpool. “A maioria de nós já viu ou experimentou esse tipo de coisa de perto e isso precisa mudar.”

A surpresa, diz César A. Urbina-Blanco, um pós-doutorando na Universidade de Ghent, é que os pontos de vista passaram pela revisão por pares e foram publicados pelo que ele considerava um periódico respeitado. O trabalho difícil que a química precisa fazer, diz ele, envolve observar onde essas atitudes sobrevivem, algo que muitas vezes recai sobre aqueles que são mais afetados por elas. “As minorias são as únicas a iniciar essas conversas quando não deveríamos ser”, diz ele. “A academia é nosso lugar, mas não somos nós que precisamos mudar.”

Essas traduções são parte da colaboração entre C&EN e a Sociedade Brasileira de Química. A versão original (em inglês) deste artigo está disponível aqui.

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